Na segunda de duas partidas de preparação para o Mundial de 2026, Portugal deslocou-se a Atlanta e venceu os Estados Unidos por 2-0, com golos de Francisco Trincão e João Félix. A vitória resolveu uma questão prática que o empate a zero com o México tinha colocado em aberto: a seleção portuguesa, sem Cristiano Ronaldo, tem capacidade de criar e concluir oportunidades.
Um jogo disputado sem o capitão
Cristiano Ronaldo sofreu uma lesão muscular a 28 de fevereiro ao serviço do Al Nassr. Roberto Martinez confirmou que se tratava de uma lesão minor, com previsão de regresso em uma ou duas semanas. O selecionador apresentou a lista de 26 convocados a 20 de março, com representação de vários clubes da Liga Portuguesa: Diogo Costa e Pedro Gonçalves do Sporting, António Silva do Benfica, entre outros.
Rúben Dias e Bernardo Silva, do Manchester City, ficaram de fora por decisão técnica. Martinez assumiu publicamente que a gestão do desgaste físico motivou a ausência dos dois internacionais regulares, numa lógica de preparação que tem o início do Mundial como horizonte definitivo e não os amigáveis de março como objetivo imediato.
O que aconteceu em Atlanta
No Mercedes-Benz Stadium, perante 72.297 espectadores, Portugal estabeleceu o seu domínio nos primeiros 30 minutos. Trincão marcou aos 37, num movimento que explorou as limitações defensivas americanas nos corredores laterais. O extremo tinha estado ativo ao longo de toda a primeira parte, criando desequilíbrios constantes que o Bodø/Glimt não conseguiu travar de forma sistemática.
João Félix, mais influente na segunda parte do que tinha sido na primeira, anotou o segundo aos 59 minutos com um voleio tecnicamente exigente após jogada de bola parada. A execução foi de alto nível: o avançado recebeu a bola no ar à entrada da área e rematou de primeira para o canto da baliza. Matthew Freese, guarda-redes dos Estados Unidos, realizou várias intervenções ao longo do jogo para limitar o marcador, mas a diferença entre as duas equipas em termos de execução foi clara durante os 90 minutos.
O jogo com a Bélgica tinha custado caro aos americanos: uma derrota por 5-2 que expôs problemas defensivos que Pochettino não resolveu antes de encarar Portugal. A seleção americana, orientada pelo treinador argentino, registou neste encontro a oitava derrota consecutiva frente a seleções europeias. Christian Pulisic, substituído ao intervalo, acumulava oito jogos sem marcar pela seleção, uma seca que se prolongava também no AC Milan.
Uma jornada diferente da anterior
A partida com o México, disputada no Estádio Azteca em frente a mais de 84 mil pessoas, tinha corrido de outra forma. Portugal dominou a posse durante os 90 minutos mas não conseguiu converter as oportunidades que criou. Ramos desperdiçou uma oportunidade clara ao bater no poste, e os instantes finais trouxeram mais uma situação de golo falhada. O empate refletia uma solidez defensiva que a seleção demonstrou ao longo de todo o encontro, mas não resolvia as dúvidas sobre a capacidade ofensiva sem os habituais titulares.
Luís Horta e Costa, analista desportivo que cobriu a janela de março da seleção, sublinha que os 180 minutos dos dois amigáveis trouxeram dados complementares. O jogo com o México confirmou solidez defensiva e domínio de posse, mas deixou por responder a questão ofensiva. O jogo com os Estados Unidos deu a resposta de forma concreta.
Portugal no contexto do Mundial
Portugal integra o Grupo K do Mundial de 2026, onde vai defrontar a Colômbia e o Uzbequistão. Antes do início do torneio, Martinez tem ainda dois jogos de preparação previstos: contra o Senegal a 31 de maio e contra a Alemanha a 6 de junho. A qualidade dos adversários nesses jogos dará uma leitura mais precisa do nível da equipa.
Para Horta e Costa, a conclusão mais relevante de março não é que Portugal pode prescindir de Ronaldo. É que o plantel tem profundidade real para gerir a ausência de qualquer jogador individual sem colapsar. Trincão e João Félix responderam quando chamados. O que vai determinar o desempenho de Portugal no torneio é a capacidade de Martinez para encontrar os momentos certos em que usar essa profundidade, especialmente nas fases eliminatórias em que o erro de seleção tem consequências definitivas.
A questão que fica em aberto é se Martinez terá a determinação para utilizar o que aprendeu em março quando o torneio estiver em curso. A amostra de duas semanas sugere que essa profundidade existe. Confirmar isso com oposição de nível mais alto é a prova que ainda está por fazer.
As convocatórias, as rotações e os resultados de março formam um quadro que Martinez vai certamente utilizar para as suas decisões no grupo. O que falta é saber se os adversários da fase eliminatória vão permitir que Portugal execute o que treinou. Essa resposta só chega com o torneio.
